Cena do filme Safety Last (O Homem Mosca), Fred C. Newmeyer e Sam Taylor, 1923.

Qual é o momento certo para mostrar meu texto ou projeto de texto a um(a) especialista para obter orientação: antes, durante ou depois de tê-lo escrito?

Os três momentos são excelentes, mas é preciso saber que muitas vezes evitamos ou postergamos contar com orientação especializada por receio de encarar o estado real dos nossos textos. Primeiro, vou considerar as vantagens de buscar orientação em cada etapa. Em seguida, vou comentar o grande receio que nos faz evitar ou postergar a busca por orientação especializada.

Buscar orientação antes de começar a escrever permite que você inicie seu projeto mais seguro dos seus objetivos e desafios, partindo para o trabalho de escrita em si, em vez de se alongar demais em fases preparatórias, que podem se tornar infinitas e ótimos álibis para nunca começar realmente a escrever (ou seja, a arriscar-se de verdade!). São elas: pesquisa; leitura de obras de referência ou afins; detalhamento de enredo, personagens, cenários, peripécias etc.

Buscar orientação durante o processo de escrita é excelente para resolver impasses que estão impedindo a conclusão do seu original da forma desejada. Perguntas comuns nessa fase: “Será que produzi o suficiente para que meu projeto literário seja compreendido?”, “Será que escrevi o suficiente para que eu mesma(o) o tenha compreendido?”. Perguntas essas mais facilmente respondidas com o olhar de outra pessoa, certamente.

Já no final do processo de escrita, a orientação é essencial como avaliação do percurso feito, deixando mais claro o original que se tem em mãos, seus aspectos bem desenvolvidos e os que ainda podem melhorar e, principalmente, como fazê-lo.

Se contar com orientação é tão eficaz, por que demoramos tanto para nos decidir? Diria que por vários motivos, mas na base de todos está o tal “medo do fracasso”, o medo de não ser “um escritor de verdade”! Como enfrentar esse medo? Duas estratégias infalíveis: 1) Não escrever nem uma linha! 2) Não mostrar as “mal traçadas linhas” para ninguém!

O problema é que fugir do fracasso tem o custo de fugir também da jornada de se tornar escritor.

Segundo o sociólogo norte-americano Howard Becker, autor de Truques da escrita: para começar e terminar teses, livros e artigos (Zahar, 2015), nosso medo mais profundo ao enviar nosso original para alguém ler é o medo de parecermos ridículos! Para sair desse impasse, é preciso tomar duas providências.

A primeira, diz Becker, é nos livrar de uma crença muito difundida entre os aspirantes a escritor: a de que bons escritores escrevem bem e corretamente logo da primeira vez em que escrevem. Na verdade, bons escritores são aqueles que perseveram na arte da escrita, ou seja, são capazes de escrever bastante e revisar inúmeras vezes o que escreveram a partir da própria opinião e da de leitores confiáveis.

A segunda, encontrar esses tais leitores confiáveis, ou seja, leitores sinceros e capazes avaliar nosso texto de acordo com a fase em que ele se encontra: esboço, processo ou final, oferecendo conselhos precisos de como melhorá-lo e, também, reconhecer o que há de original e bom em nossos textos.

Então, para superar o medo do ridículo, um escritor precisa saber que escrever é reescrever. Se o que você escreveu não está bom, ótimo, revise! Se tiver um leitor especializado para ajudá-lo a ver o que está funcionando e o que não está, tanto melhor.

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